domingo, 15 de março de 2015

A inesperada (?) virtude da ignorância


Ao final de Birdman, só uma coisa passava pela minha cabeça: Cisne Negro. As semelhanças são muitas: artistas buscando perfeição em seus desempenhos, a procura pelo transcedental e a instabilidade mental e emocional, resultado dessa busca. O filme aborda muitas questões relacionadas ao meio artístico e, a que mais é enfatizada aqui, é o velho e conhecido duelo 'arte versus entretenimento'. Afinal, existe apenas um ou outro?


A película, vencedora do último Oscar de melhor filme, retrata a busca pelo reconhecimento artístico de Riggan Thomson (Michael Keaton), que no passado fez muito sucesso interpretando Birdman, um super-herói que se tornou ícone cultural. Sua carreira decaiu após sua recusa em estrelar o 4º filme da franquia e, para buscar reconhecimento, o ator decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. No entanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis), sua filha (Emma Stone) saída recentemente da rehab e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente.



Apesar de ser notoriamente um filme de arte - muito instigante, por sinal - ressalto aqui um lado negativo: os estereótipos. A crítica de teatro é odiosa, o ator de método é arrogante e a filha problemática. Embora possamos ver mais de uma faceta em Sam, a filha, fica um pouco difícil decifrar Mike, um personagem muito interessante. No entanto, Riggan é o melhor em termos de profundidade. O que é normal por ele ser o protagonista.


Ao final, algumas dúvidas pairam no ar. Será que para chegar ao transcedental é preciso de hiper realismo? A tal da verdade que o ator passa em cena precisa ser de fato real? É necessário sacrificar tudo em nome da arte? Ou seria pelo prestígio? O filme levanta mais dúvidas e discussões do que respostas. Nada fica claro e isso abre margem para diversas interpretações. Vi apenas uma vez e estou escrevendo essa resenha imediatamente após assistir o filme. Então, não sei exatamente o que deduzir. Mas acho que essa é a graça. A arte está aí para isso, confortar o perturbado e perturbar o confortável. Será que finalmente cheguei a uma conclusão?

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A complexidade de uma vida ordinária


Acho que o nome desse blog nunca foi tão pertinente. Lendo as minhas últimas postagens, percebi que o tema cult é muito recorrente, pois costumo escrever sobre obras que retratam a vida com a maior fidelidade possível. O filme de hoje tem essa característica e mexeu muito comigo, pois é íntegro com a realidade: Boyhood, uma obra-prima do cinema. Assisti há quase uma semana e, desde então, venho procurando as palavras certas para escrever. Essa é a minha tentativa.

A película me encantou desde a primeira cena. Sou dessas pessoas que acreditam que a arte, apesar de suas mais abstratas formas, quando retrata a vida com realismo, é uma das coisas mais valiosas e belas que existem. Parafraseando Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. Não poderia concordar mais. É através dela que tenho a reconfortante sensação de que não estou sozinha. 


Escrito e dirigido pelo gênio Richard Linklater, o filme retrata a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette, excepcionais) que tenta criar seus filhos Mason (Ellar Coltrane, incrível) e Samantha (Lorelei Linklater). A narrativa foca na vida de Mason durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo.


Obrigada pelo comprometimento, Richard, elenco e equipe. Não foi apenas devido ao fato de ele ter sido filmado em doze anos, acompanhando realmente o crescimento do protagonista e o envelhecimento dos atores, que me fez apaixonar pela obra. Mas sim por ela retratar com tanta poesia uma história aparentemente comum. Boyhood mostra que a tal da "vida ordinária" não é sinônimo de uma jornada sem graça. Temos nossos altos e baixos e somos complexos. E ao final, ficamos aliviados ao ver que Mason, apesar das adversidades e dos percalços da vida, sobreviveu com dignidade. E nós também. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Metalinguagem cinematográfica


Eu adoro filmes que falam sobre filmes. Como uma amante da sétima arte é inevitável não gostar do tema. Metalinguagem me fascina. E o filme que escrevo hoje é ainda mais especial para mim, pois fala de críticos de cinema. Não estou afirmando que eu seja uma, mas sou jornalista, amo cinema e, inclusive, o tema da minha monografia foi este, a crítica de cinema. 

Quem me apresentou O Crítico foi meu irmão. Ele tinha ido assistir e me contou a história. Confesso que eu estava meio por fora e não sou grande conhecedora do cinema argentino, mas fui correndo assistir quando soube do tema. Eu ia ver Boyhood, mas estava sem sessão. Decidi então optar por este filme. Vamos à sinopse: Víctor Tellez (Rafael Spregelburd) é um crítico de cinema exigente e prestigiado que odeia comédias românticas e acredita que o melhor da sétima arte está no passado. Amargo e mal humorado, ele procura um apartamento e conhece Sofía (Dolores Fonzi), bela e com gostos opostos aos seus. Tellez tenta, mas não consegue evitar que sua vida se transforme a partir de então em um romance clichê.


Eu me encantei. Adorei a metalinguagem, o exagero dos estereótipos (propositais, para apresentar um ponto) tantos dos críticos, quanto das comédias românticas. Simplesmente sentei e me deliciei com a obra. Despretensiosa, sim. Mas que transmite uma mensagem. É isso que gosto de ver. Cinema de boa qualidade sem ser pedante. Que respeita o telespectador. E você pensa que lendo isto já descobre o final? Só te digo uma coisa: assista. Você vai gostar mesmo se não for amante de cinema. Mas se, como eu, você for apaixonado por esta incrível arte, vai se encantar ainda mas com esta deliciosa obra do cinema argentino. Super recomendado!  

sábado, 8 de novembro de 2014

Tavi Gevinson e porque precisamos ver mulheres multifacetadas no cinema e na TV


Eu sei, eu sei... esse blog é de resenhas de cinema. Mas já que é meu, por que não mudar? E minha pauta de hoje não deixa de ser relacionada ao tema. Vamos lá! Eu acabei de ver um vídeo que me deixou muito inspirada. E preciso falar sobre isso, colocar pra fora. E, para mim, nada melhor do que fazer isso escrevendo. O que me inspirou foi um discurso da Tavi Gevinson no TED há 2 anos. Sim, estou atrasada. Mas nunca é tarde para descobrir coisa boa, não é?

Afinal, quem é Tavi Gevinson? Tavi é uma menina prodígio, daquelas "gênias" mesmo, com maturidade e inteligência fora do normal. Ela ficou conhecida por ser uma das blogueiras de moda mais jovens do mundo. Aos 11 anos, com o blog Style Rookie, ela ganhou o mundo por causa do seu estilo com referências inteligentes e ideias transgressoras. Aos 12, já assistia desfiles na primeira fila das melhores semanas de moda . Atualmente, aos 18 anos, é editora da revista Rookie Magazine, criação própria, uma extensão de seu blog. Sem contar que Tavi já se aventurou no cinema, no ótimo “À Procura do amor”, que falei aqui. E este ano está estrelando uma peça na Broadway, This Is Our Youth!

Essa introdução já diz muito, né? Eu lembro de, há alguns anos, ler sobre uma blogueira de moda pré-adolescente e ficar chocada – negativamente – com isso. Puro preconceito meu, admito. Pois ela é muito mais. Lendo sobre Tavi, descobri que ela decidiu se distanciar do mundo da moda por ver que aquele universo de desfiles high fashion, consumo desenfreado e corpos com padrões a seguir, mais aprisionava que libertava, o que sempre acreditou ser o propósito da moda.

Sobre o vídeo, Tavi fala de personagens femininas na cultura pop. Ela evidencia a falta de facetas delas, mas destaca as poucas e boas que existem no cinema e na TV. Tavi cita Tina Fey, com seu 30 Rock (sensacional), Kristen Wiig com Missão Madrinha de Casamento (adoro!), Lena Dunham com Girls (excepcional), que já falei aqui e aqui, entre outras.
  

O que eu quero expressar aqui é a importância de meninas e mulheres como Tavi, Lena, Tina e Kristen, de mostrarem na cultura que mulheres são muito mais que estereótipos. Mulheres são complexas como todo ser humano. Nossa cultura é recheada clichês e personagens, principalmente femininas, sem múltiplas facetas. Acho que está aí a resposta da minha preferência por filmes independentes. São nessas obras que costumam ser retratadas pessoas reais. Eu não sou um estereótipo, um clichê. Sou multifacetada, complexa. E não conheço ninguém unidimensional, mulher ou homem. Por isso, vou encerrar esse texto com uma frase incrível de Tavi na palestra: “Mulheres são complicadas... não porque são malucas, mas porque as pessoas são malucas, e mulheres são pessoas.” Sem mais.


Para ver o vídeo, clique aqui. Enjoy!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Quando o medo da decepção pode nos sabotar

Eu adoro um filme independente. Gosto bastante. Mesmo que o gênero tenha virado uma espécie de clichê no meio cinematográfico, especialmente no cinema americano, eu me arrisco e vejo qualquer um do estilo. Quando vi que a incrível Julia Louis-Dreyfus, mais conhecida por interpretar Elaine na obra prima Seinfeld, e arrasar na pele de Cristine em The New Adventures of Old Cristine, protagonizou uma “dramédia” após 17 anos sem atuar no cinema, não pude deixar de conferir. "À procura do amor", ou melhor, "Enough Said", nome original, entrou para a minha listinha. No entanto, só fui assistir quando estreou no Telecine, em uma segunda tediosa.


O longa conta a história de Eva (Julia Louis-Dreyfus), uma massagista divorciada e mãe solteira que teme a partida da sua filha para a faculdade. Ela logo começa um romance com Albert (James Gandolfini), um homem engraçado que está vivendo um momento muito parecido com o seu. Só que esse relacionamento será ameaçado com a chegada de sua nova cliente, Marianne (Catherine Keener), que é também ex-mulher de Albert.

O que os dois têm em comum? A tal da síndrome do ninho vazio, como é chamada nos Estados Unidos. O “ritual”, muito mais comum neste país, acontece normalmente quando os filhos, aos 18 anos, saem de casa para morar na faculdade. Este foi um fator em comum que aproximou ainda mais os dois.


É quase redundante falar que as atuações dos protagonistas são maravilhosas. Naturais, como a cartilha do cinema independente pede, Dreyfus e Gandolfini têm uma química excelente e sem esforço. O timing cômico de Julia aqui é mais que visível e a atriz se sai muito bem também nas cenas mais dramáticas. James, que faleceu após concluir o filme, e foi muito famoso por interpretar o mafioso Tony em Os Sopranos, está leve, confortável em seu papel. Algo que não imaginaríamos quando pensamos neste ator. Versatilidade é tudo.  


O filme narra a história de amor entre pessoas maduras, divorciadas. Uma sinopse que requer um público específico? É aí que você se engana. A história é universal. Afinal, existe coisa mais humana que sabotar os possíveis futuros relacionamentos por medo de sofrer? Acredito que não. Não entendeu o que isso tem a ver com o filme? Então assista. Duvido que vá se arrepender.


domingo, 5 de janeiro de 2014

Os limites da amizade

Cinema com diálogos. É disso que eu gosto. Pessoas se expressando, identificação através de palavras, de gestos, de olhares. Não apenas clichês e efeitos especiais que tornam tudo mais lúdico e, por isso mesmo, menos realista. A vida é feita dos diálogos, tantos os que falamos, quanto os que deixamos de falar. E quando o cinema nos traz uma obra que retrata realisticamente e naturalmente o que acontece conosco, ela ganha um ponto extra comigo.

O cinema mumblecore trouxe essa proposta: produzir filmes que tenham em seus diálogos a força necessária para transmitir através da obra o que acontece na vida. Porque na vida não temos sempre a resposta pronta, nem temos a soluções rápidas para nossos problemas. E, na maioria das vezes, ninguém vai nos salvar de nada. A vida simplesmente acontece. O que é, afinal, esse movimento? O mumblecore, “geração do resmungo”, em inglês, é o nome dessa onda do cinema norte-americano de filmes independentes. É um movimento artístico que ganhou força após o 11 de setembro. É um cinema autoral, que tem nos diálogos a sua principal força. São pessoas comuns, passando por problemas que todos passamos. Flexibilidade nos roteiros, improviso, utilização de captura digital de imagens e o fator confessional das histórias contadas na tela são as marcas do movimento.

E nem preciso dizer que sou fã do movimento, né? E que filmes como Frances Ha e séries como Girls fazem parte dele e, por isso, figuram na lista dos meus favoritos. Bem, toda essa divagação faz parte da introdução de um filme de um diretor muito importante do movimento, Joe Swanberge que me tocou muito: Drinking Buddies

O filme tem a história centrada em Kate (Olivia Wilde) e Luke (Jake Johnson), dois amigos funcionários de uma fábrica de cerveja. Com gostos parecidos, os dois sempre flertaram um com o outro, mas nunca entraram em um relacionamento, porque Luke está pensando em se casar com sua namorada, e Kate namora um produtor musical. Como diz o título, eles, além de amigos, são "parceiros de copo", passam os dias a beber, jogar sinuca, beber de novo... Os dois são claramente perfeitos um para o outro, embora sejam comprometidos. O filme mostra justamente até onde essa "linha" da amizade entre homens e mulheres, pode ser ultrapassada. 



É aí que o cinema autoral mostra todo o seu diferencial. O filme aponta de forma crua o que de fato acontece nesses relacionamentos. Pontos para o diretor, que deixou os atores à vontade para improvisar suas cenas. Inclusive, o filme não tinha um roteiro com falas definidas. Swanberg dava os "esqueletos" das cenas para os atores e falava para eles as desenvolverem a partir daquilo. Além desse fator, soma-se a química perfeita entre Wilde e Johnson. A improvisação deu mais que certo, como é provado numa cena de conversa entre entre Kate e Luke. Ela fala o seguinte: "That's the problem with heartbreak, is that to you it's like an atomic bomb and to the world it's just really cliche, because in the end we all have the same experience". Sensacional! 


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A obrigação de crescer e amadurecer


Como gosto de ressaltar aqui frequentemente, me admira cada vez mais a capacidade do cinema de despertar a identificação através de uma obra. Posso afirmar que é através dessa identificação que encontramos a catarse necessária para enfrentar e lidar com a realidade. Pelo menos, é o que acontece comigo. 

É com essa introdução que venho apresentar Frances Ha, um dos melhores filmes que vi este ano. Muitas foram as comparações que vi, nas críticas que li, com a série Girls, de Lena Dunham. No entanto, apesar de eu ser completamente apaixonada pela série de Dunham, como já mostrei aqui e aqui, "Frances" desponta como uma obra menos crua esteticamente e, embora mais doce, é também triste e melancólica.   

Vamos à história: Frances (Greta Gerwig) divide um apartamento em Nova York com Sophie (Mickey Sumner), sua melhor amiga. Brincalhona e com ar de quem não deseja crescer, ela recusa o convite do namorado para que more com ele justamente para não deixar Sophie sozinha. Entretanto, a amiga não toma a mesma atitude quando surge a oportunidade de se mudar para um apartamento melhor localizado, mesmo que isto signifique que ela e Frances passem a morar em locais diferentes. A partir de então tem início a peregrinação de Frances em busca de um novo lugar que se adeque às suas finanças, já que ela é apenas aluna em uma companhia de dança à espera de uma chance de integrar o grupo de bailarinos que encenará o espetáculo de Natal. Mesmo diante das dificuldades, Frances tenta manter o alto astral diante os problemas que a vida adulta traz.

Achamos que ao sair da faculdade caminharemos rumo ao crescimento pessoal e profissional rapidamente. Mas as coisas não são assim e é nesse período que muitos de nós somo obrigados a crescer e amadurecer, por mais que muitas vezes relutemos. O mais impressionante é nos darmos conta de que, além de não estarmos onde e como imaginávamos, também vermos que os nossos sonhos estão bem longe virarem realidade.

E é sobre isso o filme dirigido por Noah Baumbach. A obra traz uma leveza, ao mesmo tempo em que é um "wake up call" para essa geração, a minha geração. Todos nós crescemos, mas não necessariamente amadurecemos. Mais uma vez ressalto a importância da arte, pois é através dela que enxergamos de forma mais ampla o que ocorre em nossa volta. Espero que não aconteça apenas comigo. 



OBS: Não posso deixar de citar duas cenas que, na minha opinião, foram as melhores do filme: a cena de Frances dançando ao som de Modern Love, de David Bowie e uma linda cena de uma conversa em um jantar. Maravilhosas! 

sábado, 1 de junho de 2013

...Continuando

Em adição ao post anterior, gostaria de colocar esta cena de "Girls" que, para mim, é uma das melhores da série. São diálogos inteligentes que mostram o clima real do programa, além de ótima direção e performance das atrizes. A cena em questão é de uma brigada entre Hannah e Marnie.


Já esta outra cena - que também adoro - mostra Jessa pela primeira vez em um momento de vulnerabilidade, destruindo o estereótipo de menina cool e bem resolvida. Na cena, Jessa procura Hannah e, sem falar nada, demonstra todas as suas emoções após o fim de seu casamento relâmpago. Palmas para Jemima Kirke, que não se considera atriz, mas que aqui dá um show de interpretação. 




O que acharam das cenas? Alguém se identifica?

sexta-feira, 31 de maio de 2013

EMOTIONAL NUDITY

Divaguei, divaguei e divaguei sobre como escreveria a resenha desta, que é a série que mais me tocou no último ano. Confesso que não foi de primeira, mas, com o passar dos episódios, “Girls” me conquistou e extraiu emoções de mim que achei que nenhum filme, série ou livro o faria.  Ainda bem que a arte existe!
Obrigada, Lena Dunham, por despir-se emocionalmente e trazer à tona emoções difíceis de lidar. A atriz, que também é protagonista, criadora, roteirista, diretora e produtora da série da HBO, inova na maneira de retratar um grupo de meninas de 20 e poucos anos.
Girls narra a história de Hanna Horvath (Lena Dunham), uma aspirante a escritora que precisa se virar sozinha depois que seus pais decidem retirar a ajuda financeira. Com 24 anos, a protagonista é acomodada, insegura, mimada e tem sérios problemas de autoestima, compondo um personagem complexo e que pode evoluir bastante ao longo da série. Além de Hanna, Girls também apresenta Marnie (Allisson Williams), uma recepcionista da galeria de arte, cujo sonho é trabalhar com questões ambientais. Ela é apresentada como a mais “responsável” do grupo, mas mesmo assim vive um relacionamento completamente enfadonho com alguém que não combina com ela. Já Jessa (Jemima Kirke) é uma britânica estudante de filosofia, que afirma ter viajado pelos quatro cantos do planeta. Seu estereótipo é o da garota descolada e bem resolvida, mas logo percebemos que as coisas não são exatamente da forma que ela demonstra. A última personagem é Shoshanna (Zosia Mamet), a prima de Jessa. A caçula do grupo está ainda na faculdade e é virgem no início da série. Inicialmente, tem a intenção de encontrar um namorado bem sucedido e sonha com uma vida no estilo “Sex and the City”. Posteriormente, revela-se uma surpreendente fonte de sabedoria.
“Devemos escrever sobre o que sabemos” é uma frase que ouço muito. E, com apenas 26 anos, Lena vem escrevendo sobre os 20 e poucos anos de uma geração perdida e em crise como ninguém. Esta geração está perdida não apenas economicamente, mas também em relação a rumos futuros, principalmente nos EUA, onde se passa a série e local onde a recessão perdura significativamente até hoje.
No entanto, como uma brasileira de 24 anos e jornalista recém-formada (também com pretensões literárias), me identifico constantemente com os percalços destas quatro protagonistas.
A série foi bastante comentada devido às suas cenas de sexo um tanto bizarras. Mas, como afirmou a intérprete de Marnie, Allison Williams, muito mais do que a “nudez corporal”, a série apresenta de forma crua as emoções destas jovens, ou seja, a nudez emocional, retratada no título deste post. Lena, através dos diálogos e situações da série, é capaz de despir-se emocionalmente como nunca vi. E, por causa dessa falta de pudores emocionais e psicológicos, a série vem se destacando cada vez mais.  
Hannah é uma menina mimada, preguiçosa e que não assume seus erros. Por isso, muitas vezes a julgamos. Mas, afinal, quem nunca agiu assim? O que quero ressaltar aqui é que é realmente incômodo nos vermos através de nossos próprios defeitos que, muitas vezes, procuramos mascarar. E assim segue a sociedade, querendo enfeitar e esconder. Por isso a arte existe, para perturbar o que é confortável, para testar os limites da hipocrisia. E para que, desta forma, ao olharmos para nós mesmos, possamos evoluir e nos tornar pessoas melhores. Bem, esse é o meu ponto de vista.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Under Pressure


É tão bom ser surpreendida positivamente! Sem grandes expectativas, fui assistir “Se Enlouquecer, Não se Apaixone” (It's Kind of a FunnyStory). Novamente, o título brasileiro foi infeliz. Mas não se deixe enganar, o filme vale a pena. Contando com uma sensibilidade sutil, porém poderosa, o longa é contado de forma simples e traz atuações delicadas através de uma história cativante. Pena que não teve seu devido reconhecimento...

Vamos à história! Craig, um menino de 16 anos (Keir Gilchrist), estressado com as demandas de ser um adolescente e por causa de sérios problemas escolares e emocionais, se interna em uma clínica psiquiátrica. Lá ele descobre que a ala dos menores está fechada — e se encontra preso na enfermaria adulta. Craig passa a conviver com adultos que possuem diversificados problemas mentais — incluindo Bobby (Zach Galifianakis) o qual se torna mentor de Craig durante sua estadia na clínica —, e se apaixona por uma moça um tanto desequilibrada, da mesma idade, chamada Noelle (Emma Roberts).


Encantei-me com dois atores em particular: Keir Gilchrist, intérprete do sensível e depressivo Craig; e  Zach Galifianakis, ator já conhecido por seu ótimo timing cômico e pela trilogia de estrondoso sucesso “Se Beber Não Case”. O primeiro se mostra natural no papel de um menino emocionalmente abalado pelas pressões que sofre. Demonstrando grande vulnerabilidade, Gilchrist apresenta sutilmente o que a depressão pode fazer com um jovem rapaz. Já Galifianakis prova que a veia cômica não é sua única virtude como ator. Em um papel que é um misto de comédia e drama, Zach entrega um personagem cativante, no qual torcemos e queremos ajudar. Versatilidade é isso.

Destaco também a participação da atriz indicada duas vezes ao Oscar, Viola Davis. Ótima como a psiquiatra responsável por esta ala do hospital, Davis nos entrega uma terapeuta que foge dos clichês do gênero, com uma participação que, embora seja curta, é extremamente eficiente. Viola é o tipo de atriz que traz energia consigo. Mais um ponto positivo para o longa!


Não vou me estender, pois espero que muitos vejam o filme e, como eu, se surpreendam. A mensagem por mim captada é: não ceda à pressão. Sim, ela é constante e a vida por si só já é difícil. Mas, deixemos para sofrer e nos preocupar com o que for realmente desconcertante. Como diria Mercury e Bowie, “Why can't we give love that one more chance?”. Vamos dar mais uma chance para amor e para nós mesmos.


OBS: A música “Under Pressure” não foi citada no título à toa, há no filme uma parte com a canção. Imperdível, cativante e catártico!

sábado, 11 de maio de 2013

Ser gentil ao invés de ter razão


Sim, eu sei que o nome do blog é CineCult Addiction e fala sobre cinema, mas desta vez vou mudar de foco e escrever sobre um livro que eu me apaixonei perdidamente. No entanto, para não perder o gancho cinematográfico, a obra em questão é a inspiração de um filme que eu amo, o homônimo O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook). Abaixo, a sinopse oficial:
Pat Peoples, um ex-professor de história na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele “lugar ruim”, Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um "tempo separados". 
Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com seu pai se recusando a falar com ele, sua esposa negando-se a aceitar revê-lo e seus amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora um viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida. 
À medida que seu passado aos poucos ressurge em sua memória, Pat começa a entender que "é melhor ser gentil que ter razão" e faz dessa convicção sua meta. Tendo a seu lado o excêntrico (mas competente) psiquiatra Dr. Patel e Tiffany, a cunhada viúva de seu melhor amigo, Pat descobrirá que nem todos os finais são felizes, mas que sempre vale a pena tentar mais uma vez.
Um livro comovente sobre um homem que acredita na felicidade, no amor e na esperança.


Matthew Quick, onde você esteve este tempo todo? Que escritor brilhante! Consegue captar cada ação, pensamento, sentimento e emoção de seu personagem principal de maneira lindamente minuciosa, fazendo com que o leitor sinta tudo o que Pat sente durante a obra. O livro, de uma leitura leve, apesar do tema forte, nos faz compreender o que se passa na cabeça de Pat, pois é narrado pelo protagonista quase como um diário.
Me fascina a mente de um artista, seja ele escritor, roteirista, cineasta ou ator e sua capacidade de criar. Transformar um personagem em humano como todos nós. Sem máscaras, sem estereótipos, sem limitações. Esse é Pat, que, ainda mais especial, sofre de transtorno bipolar.
A batalha de Pat em descobrir o que realmente aconteceu para ir para o “lugar ruim” e a sua quase infantil filosofia de que sua vida é um filme e no final as coisas vão dar certo, são fatores que fazem o leitor se encantar pelo personagem. Seu maior objetivo, seu final feliz, é se reconciliar com Nikki e terminar com o “tempo separados”.
O que é fascinante em Pat é sua devoção em se tornar uma pessoa melhor. Como ele repete diversas vezes no livro, “estou praticando ser gentil ao invés de ter razão”. É lindo e, ao mesmo tempo, triste, o fato de Pat se esforçar tanto para se tornar uma pessoa genuinamente boa e manter sua sanidade, enquanto tantas pessoas perfeitamente sãs fazem coisas horríveis.
A narrativa se torna ainda mais interessante quando entra em cena Tiffany. Com seus próprios demônios interiores, porém com consciência deles (diferente de Pat), Tiffany é uma personagem tão poderosa quanto o protagonista, embora tenha menos destaque. Com uma história igualmente triste e também com o peso de uma doença mental, ela é uma mulher que, apesar de machucada pelos dissabores da vida, traz consigo a coragem de assumir quem de fato é. Ela não se esconde através de máscaras, e reconhece que tem problemas, apesar da hipocrisia da sociedade, que quer mascarar qualquer idiossincrasia das pessoas.
Além de todas as dificuldades que enfrenta, Pat ainda tem que lidar com seu difícil pai. Um homem que só fica de bom humor quando seu time de futebol americano ganha. Um personagem duro, podendo ser visto, se fosse um livro mais “preto e branco”, como um antagonista. No entanto, ele não é um vilão, pois esta é uma narrativa realista, sem heróis nem bandidos, e sim humanos. É um homem complicado, teimoso e que se recusa a falar com seu filho mentalmente instável. Um patriarca que não dificilmente podemos encontrar nas famílias de classe média pelo mundo. Porque lidar com doenças mentais não é fácil. E, embora seja um assunto menos estereotipado atualmente, ainda há muito preconceito ao seu redor.
Adiciono na lista de personagens cativantes o terapeuta de Pat, Cliff, um sujeito doce, competente e, que posso afirmar, o melhor terapeuta que já vi na literatura ou no cinema, na minha humilde opinião. Sua adorável, protetora e dedicada mãe, Jeanie, e seu amado irmão Jake. Esses três, juntamente com seu melhor amigo Ronnie e Tiffany, ajudam Pat a percorrer o difícil caminho de recuperar a memória, o tempo perdido e sua sanidade.
Como aconselha Pat, devemos ser positivos, acreditar em finais felizes e no lado bom da vida. No entanto, sem perder a noção de realidade, pois ainda assim, a vida é difícil e é necessário encará-la.




sexta-feira, 26 de abril de 2013

A hipocrisia das relações humanas



Nova York, dias atuais. Dois casais de classe média alta se reúnem na casa de um deles para discutir o fato de o filho de um ter batido no do outro. Deus da Carnificina (Carnage, 2011), do consagrado e polêmico Roman Polanski, mostra o embate, inicialmente civilizado, desses dois casais. Dissecando a sinopse, o filme traz uma crítica ao politicamente correto, quando todas as normas de conduta da sociedade são esquecidas.
A personalidade distinta destes quatro: Nancy Cowan (Kate Winslet), Allan Cowan (Christoph Waltz), Penelope Longstreet (Jodie Foster) e Michael Longstreet (John C. Reilly), é enfatizada no decorrer da trama, quando as mascaras vão caindo e a civilidade é descartada.
O primeiro casal é composto pelos pais do menino que agrediu. Nancy é uma mulher aparentemente educada e sofisticada, que muitas vezes se desculpa pelo comportamento cínico do marido, Allan. Este, por sua vez, é o que menos parece fingir. Extremamente irônico, o personagem parece estar assistindo tudo aquilo e pensando “eu sabia!”.
O segundo casal, formado por Penelope e Michael, é o que podemos chamar de exemplo da hipocrisia social. Ela, uma mulher cheia de valores morais, parece a todo instante querer educar e mostrar o que é melhor para os outros. Ele é um sujeito aparentemente calmo, mas que na verdade esconde um temperamento forte.
À medida que a discussão cresce, os bons costumes desaparecem. Ser contrariado pode nos tirar do sério. Antes disso, somos muito civilizados. A violência na sociedade é o resultado de embates contrários, sejam eles religiosos ou politicos. Afinal, o que explica as guerras?
Não é apenas o politicamente correto que é posto em xeque. As diferenças cruciais entre homens e mulheres também são ressaltadas na trama. A degradação dos relacionamentos sociais são postos à prova. Em meio disso tudo, um humor negro que nos faz rir de nós mesmos.


Como citou Balzac, “os costumes são a hipocrisia de uma nação”. Essa fantástica obra, baseada na peça da dramaturga francesa Yasmina Reza, justifica perfeitamente tal afirmativa. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Young folks




Até onde nossos planos dão certo? A fórmula parece simples: estudar, se formar, trabalhar, casar e ter filhos. No entanto, essa nem sempre é a ordem natural das coisas, e muitos optam por recorrer a outro caminho.
É engraçado quando analisamos os sonhos e desejos que tínhamos na época da escola e imaginávamos como seria nossa vida ao se formar. Seremos bem-sucedidos, realizados pessoalmente e com uma família em vista – isso antes dos 30 anos. Depois, é lucro.
Curioso também é como um filme pode me fazer refletir sobre a vida. A história não precisa ser de identificação total com meu cotidiano, mas as emoções e catarse provocadas pela obra são extremamente tocantes.
Esse começo é para introduzir o filme que hoje escrevo: Jovens Adultos (Young Adults, 2011). Escrito por Diablo Cody e dirigido por Jason Reitman, a mesma dupla do ótimo e aclamado Juno (idem, 2007), o longa conta a história de Mavis Gary (Charlize Theron, em performance incrível e ignorada pela Academia), uma ghostwriter já sem tanta criatividade para produzir seus livros juvenis. A fim de recuperar a inspiração – já que seus livros não fazem mais tanto sucesso – e a própria identidade, ela volta para sua cidade natal, onde pretende reencontrar conhecidos da adolescência e reviver seu passado. Uma parte deste passado é o ex-namorado dos tempos de escola, Buddy Slade (Patrick Wilson), que encontra já casado e com um filho. Nessa jornada, Mavis acaba criando uma ligação fora do comum com um ex-colega Matt Freehauf (Patton Oswalt), que também ainda não superou totalmente o colegial. 
Com 37 anos, o peso de um divórcio nas costas, alcoólatra e com sua série de livros fadada ao fracasso, Mavis quer recuperar os tempos de glória que tinha quando era a garota mais popular da escola. Para isso, ela age como uma adolescente acreditando que conseguirá a felicidade passada reatando com seu namoradinho da adolescência.
A relação de Mavis com Matt é a mais interessante. A amizade improvável chama atenção. Ambos se veem presos ao passado. Ela pelos motivos acima citados, e Matt pelo trauma de ter sido alvo da violência dos garotos populares da escola, que bateram tanto nele, o que resultou em um problema físico.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Reality bites


Acredito que um dos segredos para um grande obra - seja na literatura, ou como nesse caso, no cinema - é sua atemporalidade. Aquele fator que permanece com o passar dos anos, cujo o público possa se identificar, não importando sua geração.
Esse é o caso de Caindo na Real (Reality Bites, 1994), que após dezoito anos de sua estreia, permanece atual e completamente condizente com essa geração - a minha geração.
O filme retrata, entre outras questões, as crises existenciais de jovens de 20 e poucos anos, o que não poderia ser mais atual. Seja na geração MTV dos anos 90, ou na atual geração Y.  
Como melhor aluna da faculdade, a jovem Lelaina Pierce (a ótima Winona Ryder) estava destinada a um grande sucesso profissional. Na realidade, ela é uma assistente de produção de um detestável programa de TV matinal de seu patrão, Grant Gubler. Em seu tempo livre, Lelaina faz um ultrajante documentário em vídeo sobre a vida de sua colega de quarto, a liberal Vickie Miner, o sexualmente reprimido Sammy Gray e seu melhor amigo, Tray Dyer, um rebelde brilhante, mas desmotivado. Ao conhecer Michael, um ambicioso executivo de vídeo que quer mostrar o documentário dela num programa de televisão, ela se vê de repente no centro de um estranho triângulo amoroso com o dependente Michael (Ben Stiller) de um lado e o sexy Tray (Ethan Hawke, também sensacional) do outro. 
Confesso que a minha identificação com o longa foi instantânea e me vi em muitas situações pelas quais os personagens passam. Inclusive, a idade é a mesma.
"Eu realmente queria ser alguém quando tivesse 23 anos", confessa Lelaina. Tray responde: "Minha querida, tudo o que você tem que ser com 23 anos é você mesma". Ela devolve: "Eu já não sei mais quem ela é".
Divórcio, HIV, homossexualidade também são assuntos retratados no filme com sutileza, o que faz a obra ser bastante agradável , mas nem por isso deixa de ser questionadora. 
Indefinições, inseguranças, instabilidade. Essas são questões universais, não importa sua idade, nem sua geração.



domingo, 2 de outubro de 2011

"You always hurt the one you love"



A cena que pode ser considerada mais marcante e triste do longa “Namorados para sempre”, é quando a personagem de Michelle Williams diz com todas as letras para Ryan Gosling que não sente mais nada por ele. A intensidade da atuação da dupla é tão forte que traz um realismo marcante para o filme. A cena citada é apenas um aperitivo do percurso do filme.
Não se engane com o título infantil que foi pessimamente “traduzido”. Blue Valentine, nome original do longa,  é um drama melancólico que narra a deterioração de um relacionamento. Para trazer mais realismo ao filme, o diretor Derek Cianfrance filmou primeiro as cenas do casal se apaixonando, para depois rodar as do fim do casamento, onde eles chegaram a um nível insuportável de convivência.
Williams e Gosling são um dos melhores atores dessa geração. Intensos, bonitos e cheios de atitude e nuances visíveis em suas performances, a dupla é o grande destaque de “Namorados para sempre”. A belíssima trilha sonora conta com "You always hurt the one you love", justamente na cena em que o personagem de Gosling canta para a amada. A música não poderia ser mais condizente com o filme. A direção consistente, somada a um roteiro muito bem escrito fazem desse filme um dos mais tristes e sensacionais dos últimos anos. 


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Escapismo nostálgico


Muitas vezes o vazio de nossas vidas é preenchido por alguma forma de entretenimento, ou na ilusão de felicidade plena em uma época diferente. Woody Allen é representante confesso dessa premissa. O escapismo já foi retratado pelo cineasta em "A Rosa Púrpura do Cairo" e volta agora em grande forma com o delicioso, soberbo e naturalmente triste "Meia Noite em Paris".   
O filme é um deleite! Me faltam palavras pra descrever a sensação que tive ao assisti-lo. É  impressionante a identificação que eu tenho com Allen. Com o diretor e seus personagens principais, sempre espelhados em sua própria personalidade. 
Allen veio dessa vez coberto de nostalgia, aquela impressão que temos de não pertencer à nossa época. O diretor sempre deixou clara essa nostalgia através de suas entrevistas, principalmente as recentes para promover o longa.      
Dessa vez seu alter-ego foi interpretado maravilhosamente (sim, eu também me surpreendi!) por Owen Wilson! Woody Allen é tão maravilhoso (não me canso de babar por ele!) que conseguiu tirar uma performance sutil e graciosa de Wilson. Os trejeitos, a leve gagueira, o jeito de andar, as piadas que ninguém entende, tudo transmite Allen. Tenho a audácia de citá-lo como o melhor alter-ego desde o próprio diretor!
No filme, Owen Wilson é Gil, um roteirista de relativo sucesso em Hollywood e que sempre idolatrou os grandes escritores americanos. Frustrado com a profissão e sonhando escrever um grande romance, ele está prestes a ir a Paris ao lado de sua noiva, Inez (Rachel McAdams), e dos pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). John irá à cidade para fechar um grande negócio e não se preocupa nem um pouco em esconder sua desaprovação pelo futuro genro. Estar em Paris faz com que Gil volte a se questionar sobre os rumos de sua vida, desencadeando o velho sonho de se tornar um escritor reconhecido.
Em uma noite, cansado dos programas e futilidades de sua noiva e do amigo dela, um pseudo-intelectual (Michael Sheen), Gil sai pela cidade. Quando é meia noite, ele é magicamente transportado para a Paris dos anos 1920. É ali que encontra todos seus ídolos. Zelda e Scott Fitzgerald, Cole Porter, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Salvador Dalí, um jovem Luis Buñuel, entre outros. É lá também que conhece a musa de Picasso, Adriana (Marion Cotillard) a qual se encanta perdidamente.       
A partir daí, ele começa a "voltar ao passado" todas as noites. Com o pretexto de estar trabalhando em seu livro, Gil se livra dos programas com Inez, que nada tem a ver com ele e parece não acreditar de fato em seu talento.
É realmente difícil explicitar o brilhantismo do longa. Além de uma trilha sonora deliciosa, incluindo o próprio Cole Porter em uma de suas aparições no passado (com direito a deliciosa canção "Let's do it"), a atmosfera é toda saudosista. 
No entanto, Gil vê que todo aquele idealismo é, de fato, um idealismo! Diferente da vida real, é uma fantasia. O personagem descobre que, assim como ele, algumas pessoas daquela época também não estavam satisfeitas em seu tempo. Não é nada mais que escapismo e não importa a ocasião, é tudo uma questão de nosso interior.