Filmes pessoais são os que mais
me atraem. Acho que a profundidade dos personagens desse gênero faz eles se
aproximarem de nós, pessoas reais. Quando falo isso para os outros,
recebo instantaneamente reações de espanto. Dizem: "Esse filme é
deprimente! Como você pode gostar disso?". Mas é exatamente o oposto. Acho
que o cineasta quer justamente nos alertar através do problema de seus
personagens. O artista quer mostrar "Olha, isso está errado, vamos
mudar!". Por isso, esses filmes têm efeito catártico em mim.
Essa introdução foi feita para
explicar o filme que comento hoje. "As Horas", baseado
no livro homônimo de Michael Cunningham,
é um dos filmes mais poéticos que já assisti. Sem dúvida, está entre meus
preferidos. Para que não conhece, o longa retrata, em três períodos diferentes,
a vida de três mulheres ligadas ao livro "Mrs. Dalloway", de Virginia
Woolf, incluindo a própria. Em 1923 vive Virginia Woolf (Nicole Kidman), autora do livro,
que enfrenta uma crise de depressão e ideias de suicídio. Em 1950 vive Laura
Brown (Julianne Moore), uma
dona de casa grávida que mora em Los Angeles, planeja uma festa de aniversário
para o marido e não consegue parar de ler o livro. Nos dias atuais vive
Clarissa Vaughn (Meryl Streep),
uma editora de livros que vive em Nova York e dá uma festa para Richard (Ed Harris), escritor que fora
seu amante no passado e hoje está com Aids e morrendo.
A partir de então, as histórias
são interligadas, retratando semelhanças e diferenças entre elas. O livro de
Woolf é um importante pano de fundo, quase um personagem do filme. Em 1923, a
autora escreve o livro, em 1950 Laura Brown lê o livro e anos 2000, Clarisse
Vaughn é a própria Mrs. Dalloway.
Não quero estragar o prazer de
quem tem a intenção de ver o filme, por isso não vou me aprofundar no que
ocorre durante ele. Mas posso dizer que não é um filme só para mulheres. Ele
retrata a depressão, a insatisfação de estar preso em uma vida que não se quer.
De esconder o que realmente sente. Esses sentimentos são universais. Não a depressão
em si, mas a insatisfação, principalmente em um mundo em que, às vezes, nos
encontramos presos.
A doença vista frequentemente
como fator positivo no processo criativo, é vista de outra maneira aqui.
Virginia que se sente infeliz e depressiva, não consegue realizar seu trabalho
muito bem, apesar de ter começado o livro. Algumas pesquisas mostram que sua
fase mais criativa foi justamente quando estava com a saúde melhor.
Tanto as atuações, quanto a
direção e o roteiro do filme são impecáveis. Acredito que Nicole Kidman
(maravilhosa) ganhou o Oscar de melhor atriz pelo seu desempenho na cena da
estação de trem. Na ocasião, toda angústia da personagem é exposta e sua
brilhante atuação é comovente. Quando ela diz "até o pior paciente tem
direto de opinar sobre seu próprio remédio", está fantástica.
Agora, para mim, o maior destaque
no filme é Julianne Moore. Ela é uma das melhores atrizes do cinema atualmente.
Me espanto como ela perdeu a estatueta na época para Catherine Zeta-Jones em
"Chicago".
Vemos quando um ator é realmente completo quando ele consegue traduzir toda sua
emoção através do olhar e em poucas palavras. E é exatamente isso que ela faz.
Meryl Streep dispensa
comentários, apesar de não ser o maior destaque do filme e Ed Harris está em
seu melhor papel.
Por fim, um filme belíssimo que nos faz pensar se
estamos realmente apreciando nossa vida e fazendo boas escolhas. Como diz
Virginia para seu marido na já citada cena da estação de trem, "You cannot
find peace by avoiding life", traduzindo, "Não se pode ter paz
evitando a vida".

Brilhante seu texto Thaís! Adoro esse filme com toda minha força!! Não entendo como alguém pode não querer vê-lo! É demais!!!
ResponderExcluirAmei! Esse filme é brilhante.
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